Um pedaço de papel, uma vida.


Hospital. Que lugar mais temível. Só de saber que várias pessoas passam por ali e talvez, não podem mais voltar já me embrulhava o estômago. Respirei fundo, passei pela portaria e peguei os papéis. A recepcionista sorriu. Talvez, um sorriso forçado, mas era o que eu precisava naquele instante. Agradeci, virei e sai. Até ali estava tudo bem.

Andei pelas ruas da cidade, até chegar à minha casa. As pessoas pareciam me olhar de cima em baixo. Por quê? As árvores, como sempre, sorriam para mim. A brisa era refrescante como em um dia de verão. Tudo estava lindo.

No caminho, vi uma pessoa que lembrava você. Não me pergunte por que. Não é muito difícil te encontrar nas pessoas por ai.

Abri a porta de minha casa, joguei as chaves na mesa da cozinha e sentei na cadeira. Olhei em volta. A casa ainda estava vazia.

Olhei pros papéis e realmente não tive a coragem que deveria. Eu estava certa que aquilo não era nada. Agora tudo estava diferente. Eu estava sozinha e com medo. Respirei fundo mais uma vez e tomei coragem. “Era isso ou nada” eu dizia para mim mesma.

Finalmente abri os papéis.

Chorei baixinho sem ninguém perceber. Algo dentro de mim gritava, mas certamente os vizinhos iriam querer saber o motivo. Eu não queria aquilo. Eu não planejei aquilo. Eu queria estudar, me formar na faculdade dos sonhos, trabalhar em uma empresa que me desse o devido valor, casar, ter filhos e família. Nada daquilo estava nos meus planos. Nada.

Foram as semanas mais complicadas de minha vida. Eu odiava ter que ir naquele hospital. Mas agora estava ali, do seu lado. Nem tão do meu lado assim. Você passava sorrindo tão perfeitamente. Eu não seria capaz de te contar. Eu esconderia isso para o resto da vida. Não seria justo, e eu tinha medo de alguém sentir pena. Talvez, só assim, você ficasse comigo. Seria injusto te ver sofrer caso algo acontecesse.

E assim eu vivi, te vendo de longe sorrir com medo de tudo. Medo. Coisa que sempre me acompanhou, desde que nasci. Cresci com medo das coisas, mas no momento, o que eu mais quero é viver. Tocar meu violão, cantar uma canção, correr por ai sem perder o folego, e sem ficar dependendo de remédios. Quero ouvir os pássaros cantarem e as estrelas brilharem. Quero ver o seu sorriso, mesmo que de longe.

Desculpe por tudo que te fiz. Desculpe se te enganei, mas já está na hora de voltar aquele bendito hospital. Passar pela mesma portaria e ver a recepcionista sorrir. 

Eu era a autora de minha própria história, onde ninguém mais teria a caneta correta que escreve.

- Geissiane Aguiar

4 comentários

  1. Aw, gostei do texto. Sua narrativa é muito boa, mas o que estava escrito nos papéis? Fiquei curiosa. haha
    Beijos, Paradise.

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    1. Aí que está a graça Raquel. O que está escrito nos seus papéis? *-* Abraços! ♥

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